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O Regional Sul

Catarinense que perdeu R$ 500 mil em bets vende café em semáforo para ajudar a superar vício

A rotina de Gustavo Pereira, de 24 anos, começa às 4h da manhã. Antes de seguir para os outros dois empregos que mantém ao longo do dia, ele prepara café e chocolate quente para vender em um semáforo de Lages, na Serra catarinense.

A atividade começou há cerca de 20 dias e tem um propósito que vai além da renda extra. Depois de enfrentar um vício em apostas esportivas e cassinos, Gustavo encontrou no trabalho uma forma de manter a mente ocupada, recuperar a autoestima e reconstruir a relação com outras pessoas.

“Não me sentia vivo assim há muito tempo.”

Vício começou com apostas esportivas

Gustavo conta que começou a apostar em 2021, inicialmente com valores baixos. Segundo ele, as apostas eram vistas como uma atividade recreativa e os valores variavam entre R$ 5 e R$ 100.

A situação mudou a partir de 2024, quando passou a apostar também em cassinos.

“Parei de lidar só com apostas esportivas e me envolvi com cassinos. Perdi noção de valores, comecei a dever para banco.”

Segundo Gustavo, ele chegou a perder mais de R$ 500 mil com as apostas. O problema também afetou sua relação com pessoas próximas e a própria autoestima.

“Não tinha mais para quem pedir dinheiro, não tinha mais dignidade. Sentia vergonha de sair na rua, de olhar para as pessoas, porque muitos sabiam minha situação”, relatou.

Autoexclusão ajudou a interromper as apostas

Neste ano, Gustavo decidiu utilizar a ferramenta de autoexclusão de sites de apostas disponibilizada pelo Ministério da Fazenda. Segundo ele, a medida foi tomada há cerca de três meses e foi fundamental para interromper o acesso às plataformas.

Mas ele percebeu que também precisava ocupar o tempo e mudar a rotina.

“A partir do momento que eu comecei a ocupar minha mente, eu não penso mais em jogo, eu não tenho mais vontade.”

Foi nesse contexto que surgiu a venda de café e chocolate quente.

Café virou uma forma de reconstruir a confiança

Gustavo trabalha à tarde com vendas e, à noite, como garçom. Com a atividade no semáforo, sua jornada começa às 4h e pode terminar apenas à meia-noite.

Ele vende as bebidas pela manhã e em parte da tarde, de segunda a sexta-feira. O pagamento é feito posteriormente por Pix: o cliente recebe o copo e a chave para fazer a transferência.

A dinâmica tem um significado especial para o jovem, que reconhece que o vício também prejudicou a confiança que outras pessoas depositavam nele.

“Antigamente as pessoas confiaram em mim e eu as decepcionei. Eu perdi o dinheiro delas, eu as enganei. Hoje, eu confio nelas, eu me obrigo a confiar nelas no meu negócio.”

Além da renda, o contato com os clientes passou a ajudar na recuperação da autoestima.

“Eu parei de acreditar em mim. Tudo que eu falava era mentira, o vício desencadeia mentira, desencadeia omissão. No semáforo, no início, eu não conseguia nem olhar nos olhos das pessoas. Hoje já é diferente.”

Agora, Gustavo conversa com quem compra as bebidas, brinca e tenta tornar a manhã dos clientes mais agradável.

“O café está me salvando de uma maneira surreal.”

O vídeo em que ele mostrou parte da rotina havia alcançado 36,2 mil visualizações em uma rede social até a noite de terça-feira (25).

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